Limitado sim. Incapaz, não!


Hoje eu acordei cedo, saí da cama e fui para uma rede em outra área. Embalei-me um pouco, e logo me dei conta de que não estava mais ali.

Foi como se eu tivesse deixado meu corpo mais uma vez, e assim viajei. Senti-me sem peso algum, verdadeiramente livre. No horizonte vi um solitário viajante em sua motocicleta e logo tratei de esperá-lo passar. Acenei e ele parou. Perguntei de onde ele vinha e para aonde ia. Sem titubear ele disse que vinha da vida e ia para a vida, mas uma vida melhor, na estrada.

Após duas aceleradas vigorosas, o homem desligou a moto e sorriu.

- Viaja só, não tem medo? Perguntei eu. A surpresa veio imediatamente junto com sua resposta. Ele disse: Nao! Não tenho medo porque sou cego, e só vejo coisas que estão na minha mente, e todas essas coisas são sempre boas.

De repente voltei, senti o peso do corpo e comecei a embalar a rede novamente. Pensei um pouco sobre como seria um motociclista cego, e logo fui arrebatado outra vez. Acabei em um fabuloso encontro com o maior viajante e aventureiro de todos os tempos.

Um encontro com James Holman. Sim! Um ex. Marinheiro que ingressou na marinha em 1798 aos 12 anos de idade. Holman sofria de uma síndrome chamada "gota vaga". Um diagnostico vago que servia para quase tudo e isso o obrigou a deixar seu ofício. Em minha "alucinação", Holman confirmou tudo aquilo que li nos livros a seu respeito.

Holman, um homem cego que com a ajuda de sua bengala, usando-a com o princípio da ecolocalização, deu a volta ao mundo pelo menos 42 vezes. Pisou em todos os continentes e em quase todo os países. Mas era cego. Ainda assim, escalou o Vesúvio em plena erupção, e quase teve suas botas carbonizadas. Foi eleito para a Royal society e citado por Darwin. 

O que o deixava zangado? Quando alguém dizia ser inútil suas viagens, suas aventuras, pois nada podia ver. Mas, Holman devia responder sempre a altura. Sabe meu caro, como você nunca viajou, mesmo tendo olhos, talvez não saiba; mas terras distantes têm outro cheiro, outros sons, um clima diferente, as pessoas também falam diferente, têm hábitos distintos, os sabores são outros, e não há como experimentar essas coisas apenas lendo livros ou ouvindo falar, porque as sensações e a percepção, são atributos individuais não compartilhados 100%. 

Meu Deus! O que estou fazendo da minha vida? Tenho mãos, pés, olhos que vêem, tenho até algumas posses e bens materiais, mas faltam-me muitas experiências, quem sabe aquela que Holman, mesmo cego, experimentou. Eu nunca escalei nem muro de quintal.

Saí do transe e o estado de alucinação cedeu lugar a realidade. Se não nos apressarmos, chegará o dia em que abriremos os olhos após nosso devaneio, e iremos lamentar por coisas que nunca fizemos. Ainda dá tempo.

Obs: a história de um cego aventureiro, viajante e pesquisador, é real. Está registrada em vários livros acadêmicos, em especial na minha área, Neurociências Clínica.

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