Viagem de moto e sono na estrada. O que fazer?



É comum vermos as academias cheias de pessoas preocupadas com a condição física pessoal. Nas praças e bosques, muitos caminham, correm, se exercitam. Nos super mercados, clientes cuidadosamente observam os rótulos dos alimentos. Refrigerantes, gorduras, sal, enlatados, eliminar "junk food" é o padrão atual. 

A privação do sono é a redução ou supressão do sono.

Embora alimentação e exercício físico sejam super importante, muito se tem negligenciado quando o assunto é uma boa noite de sono reparador. E, esta é sem dúvida alguma, parte do complexo sistema que envolve uma vida saudável e longeva. Não existe vida saudável para quem não dorme bem.

O sono é um estado transitório, cíclico e reversível, que se alterna com a vigília (estado desperto). Envolve várias funções fisiológicas e comportamentais do sistema nervoso central.

A sonolência - O controle das funções orgânicas relacionadas a sonolência, ocorre internamente em regiões profundas do cérebro, elas são automáticas. Quando o sono chega, o controle é quase impossível, o único jeito é dormir imediatamente.

Durante uma viagem, o ciclo circadiano, que compreende o tempo de vigília e sono, é facilmente interrompido dado os imprevistos ou mesmo o cansaço natural. Muitos terminam dormindo menos tempo que o de costume devido a tensão do trânsito, estradas mal conservadas, a ansiedade natural na partida ou mesmo no retorno. Bem comum um sono de menor qualidade. Isso se traduz em privação do sono. 

Os padrões do sono, ou cronótipos, nem sempre são observados de acordo com o perfil de cada um. Pessoas vespertinas e matutinas, tem padrão distinto. Os matutinos dormem cedo e acordam cedo. Os vespertinos dormem tarde e acordam tarde. Se o padrão for interrompido, isso pode se traduzir em privação do sono em curto prazo.

A privação do sono coloca o piloto em risco, porque a atenção é reduzida, e, processos cognitivos interrompidos quando em estado de sonolência. O indivíduo torna-se cada vez menos reativo aos estímulos sensoriais conforme o processo se aprofunda.

A Associação Brasileira de Medicina do Trânsito (Abranet), relata que 43% dos brasileiros economicamente ativos têm privação de sono, ou seja, dormem menos do que necessitam e/ou com baixa qualidade.

A sonolência excessiva é o mais frequente dos distúrbios do sono e acomete de 4 à 12% da população geral (Souza, Paiva, & Reimão, 2004). 

O estado de sonolência é uma preparação para o sono propriamente dito. Algumas funções fisiológicas são paulatinamente inibidas. A coordenação motora se torna altamente prejudicada no estado de sonolência.

Um estudo realizado pela National Sleep Foundation (2005) constatou que 60% dos motoristas apresentaram a sensação de sonolência e 47% dos motoristas adormeceram durante trajetos longos (McCartt, Rohrbaugh, Hammer, & Fuller , 2000). São dados importantes e relevantes, porque grande parte dos acidentes estão relacionados à privação do sono.

A sonolência propicia o adormecimento em situações monótonas - tarefa repetitivas, direção de veículos e outros (Dement, Carskadon, & Richardson 1978). Durante uma viagem, dirigir ou pilotar por muitas horas sem pausa, a monotonia se instala facilmente.

Sono após as refeições. Muito comum entre os viajantes. Isso ocorre porque, o cérebro em estado de vigília, necessita de grande quantidade de sangue e oxigênio. Após nos alimentarmos, o sangue aumenta a quantidade do nutriente enviada ao aparelho digestivo e, por consequência, diminui a oferta para o cérebro, o que força a diminução da sua atividade. Resultado? Sonolência.

Outro fator é que durante as refeições, principalmente as ricas em açúcares que são de fácil absorção, a concentração de glicose sobe no sangue, o que leva a diminuir ainda mais o estado de alerta do cérebro.

O cérebro em seu estado de vigília consome 20% da energia do corpo mesmo correspondendo a apenas 2% do peso total. Consome 20% do oxigênio que usamos, e esse oxigênio chega através do sangue. Mas no processo da digestão, o sangue é "desviado" para regiões responsáveis pelos processos químico-digestivos.

Portanto, não adianta lavar o rosto, dar três pulinhos, porque enquanto a digestão estiver em andamento, a sonolência é certa. Momentaneamente, pode-se ter a impressão de problema resolvido, mas logo a sonolência volta com toda força total e risco.

O córtex pré-frontal, que regula os aspectos atencionais, da vigilância e das capacidades cognitivas e executivas, e os tálamos apresentam redução em suas atividades. Quanto maior o déficit de sono, maior a tendência a diminuir determinadas atividades cerebrais. (Thomas et al., 2003).

Além do alto risco de acidentes, a privação do sono pode provocar ainda: baixo raciocínio, depressão, reação lenta, alucinações (auditivas e visuais), problemas de memória, hipertensão, problemas cardíacos, risco de diabetes tipo II, obesidade e outros.

Para regular o ciclo circadiano interrompido, faz-se necessário a higiene do sono. Uma série de ações que irão regular e colocar o sono em dia.

Antes de dormir deve-se evitar: a ingestão de estimulantes a base de cafeína, álcool, alimentação pesada e em grande quantidade. Preferir dormir em ambiente sem iluminação, (a luz cessa a produção de melatonina, hormônio indutor do sono), procurar relaxar antes de ir para a cama. Às vezes, a simples prática de respiração, pode levar ao relaxamento. A exposição a luz solar direta, também ajuda a regular os déficits de sono.

Não dormiu bem na noite anterior? Deve-se evitar dormir durante o dia. Desta forma, o déficit será recuperado. Mas também, evitar atividades de risco que exigem atenção redobrada.

Conclui-se que, uma atenção especial para uma boa noite de sono reparador, se traduz em qualidade de vida, evita mortes, acidentes, mas também muito negligenciado nos dias atuais.

Prof. Waldez Pantoja de Souza
Especialista em Neurociências Clínica

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